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Quem acompanhou o boom das trilogias Cinquenta Tons e Crossfire, de E. L. James e Sylvia Day, deve ter percebido que o mercado de literatura erótica ganhou novos adeptos como também foi alvo de muitas críticas. Essas obras “café-com-leite”, que contam com a descrição de atos sexuais em suas páginas, não devem ser comparadas com os livros de autores especialistas em erotismo “sujo”, como Charles Bukoswki e Henry Miller.

Outro dia, me deparei com um livro no corredor da biblioteca de minha universidade: Lolita, do russo Vladimir Nabokov. Capa e título simples chamaram a minha atenção. A princípio, nem questionei o tipo de obra que estava levando para casa, mas confesso que fiquei surpresa quando descobri que se tratava de literatura erótica.

Lolita conta a história do personagem Humbert Humbert, que descobre a sua paixão e malícia por crianças e pré-adolescentes. Um dia, durante as suas viagens de escritor, conheceu Dolores Haze, 12 anos, filha de Charlotte Haze, dona de uma pensão na cidade americana de Ramsdale. Para ficar mais próxima de Dolores, Humbert decide casar-se com Charlotte. É aí que podemos conhecer H.H., um homem ciumento, meticuloso, frio e capaz de fazer qualquer coisa para ficar com sua ninfeta a quem deu o nome de Lolita.

Por ventura do destino, a mãe de Dolly (ou Lô) morre em um acidente. Humbert decide então sequestrar a menina e sair viajando pelos Estados Unidos em um carro, praticando seus desejos sexuais nos motéis de estrada durante três anos. Imagino que, a esta altura do campeonato, você já tenha percebido que se trata de uma “história de amor” doentio e de incesto.

Apesar do contexto fortíssimo do livro, Nabokov consegue transformar a narrativa em uma obra excepcional. Todos os relatos de Lolita são escritos em primeira pessoa, fazendo uma alusão de que se trata de um diário do personagem principal. Inclusive, na última página, descobrimos que “Humbert” escreveu o livro na cela da cadeia.

Existe um tabu acerca das obras de conteúdo erótico e sexual. Independente da linguagem utilizada pelo autor, vendo o sexo como algo sujo ou romântico, cabe ao leitor discernir o que é relevante. Quantas vezes você lê um livro e fica pensando qual é o objetivo do autor? Na maioria das vezes, ele não tem nenhum propósito. Não se deixe corroer por aquilo que a grande maioria pensa que é certo ou errado.

Observação: Vladimir Nabokov cita que teve que escrever este livro em inglês para não sofrer as proibições de publicação do Governo russo.

[…] Também é verdade que o termo pornografia hoje em dia está associado à mediocridade, ao comercialismo e a certas regras estritas de narração. A obscenidade precisa estar acasalada à banalidade porque todo prazer estético deve ceder lugar a simples estimulação sexual, a qual, para agir diretamente sobre o paciente, exige o emprego das palavras mais vulgares. O pornógrafo tem de obedecer a velhas e rígidas normas a fim de que seu paciente se sinta seguro de que terá a mesma satisfação que têm, por exemplo, os fãs das histórias de detetive. Assim, nas obras pornográficas, a ação tem de limitar-se à cópula de lugares comuns. O estilo, a estrutura, as imagens não podem jamais distrair o leitor de sua tépida concupiscência. O romance deve consistir necessariamente em uma alternância de cenas sexuais e as passagens intermediárias devem ser reduzidas a meras suturas narrativas. Além disso, as cenas sexuais devem ir crescendo, com novas variações, combinações sexos e um amento constante do número de participantes, de tal modo que os últimos capítulos do livro contenham uma maior dose de obscenidade que os primeiros.

Fonte: Companhia das Letras

Fonte: Companhia das Letras

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