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“O adequado não se tem, improvisa-se. O errado torna-se o necessário. O necessário é então a única coisa adequada, porque é o que temos.”

Eu não sei se já contei para vocês por aqui, mas tenho uns critérios bem estranhos na hora de escolher um livro para ler. Na maioria das vezes, levo a capa em consideração (quem nunca?), em outras, persigo o renome do autor, mas, nos últimos meses, outro critério tem sido utilizado com bastante frequência: o nome da obra. Estranho, não?

“O que se pode dizer sobre a fome crônica. Pode-se dizer: existe uma fome que te deixa doente de fome. Que se soma, ainda mais fome, à fome que já se tinha. A fome sempre renovada, que cresce insaciável, e que salta para dentro da eterna e tão trabalhosamente amansada antiga fome. Como se anda pelo mundo quando não se tem nada mais a dizer sobre si mesmo, além do fato de estar com fome. Quando não se consegue pensar em mais nada.”

Estava deslizando o meu dedo pelo tablet quando vi o seguinte título: Tudo O Que Tenho Levo Comigo, da alemã e vencedora do Prêmio Nobel de Literatura, Herta Müller. Foi impossível conter a curiosidade dos meus olhos e, como uma criança que escolhe um doce na prateleira do supermercado, embarquei na história sem pensar duas vezes.

“Porque estávamos cegos de fome e doentes de nostalgia, afastados do tempo e de nós mesmos, e sem querer saber do mundo. E o mundo de nós.”

Eu sei muito pouco sobre História Mundial. Quase nada. Não tenho vergonha de dizer isso. O pouco que aprendi foi na escola e confesso que nunca dei muita bola. Já relatei aqui para vocês o meu enorme arrependimento por estar escrevendo cartinhas de amor enquanto a professora falava o que aconteceu no outro lado do mundo. Mesmo assim, a gente não desiste de falar das coisas, por mais que a ignorância reine sobre nós.

“Um mendigo de verdade esconde as suas mãos.”

Durante o fim da guerra de 1945, Stálin declarou que os povos de origem alemã deveriam pagar pelos crimes da guerra e trabalhar na reconstrução da União Soviética. Cerca de 30 mil alemães que viviam na Romênia são levados para campos de trabalho com condições insalubres e desumanas. A narrativa de Müller é baseada nos relatos de Oscar Pastior, um amigo que passou por essa experiência à flor da pele.

“Eu sabia muito bem: há uma lei interna segundo a qual não se deve começar a chorar quando se tem razões demais para isso. Eu fingia para mim mesmo que as lágrimas eram por causa do frio, e acreditava.”

O cenário é extremamente de horror. Quando Leo Auberg, um jovem de 17 anos é internado no campo soviético, ele descobre como a fome, os trabalhos forçados, bem como as doenças, a solidão e a morte são assustadoras. A vontade de voltar para casa se mistura com o desejo de morrer para evitar o sofrimento dos russos. Por muitas vezes, consegui me imaginar nas situações citadas na obra e não sei te dizer se aguentaria essas torturas por tanto tempo.

“Porém, não se deve falar sobre a fome quando se tem fome. A fome não é uma cama; se fosse, teria medidas. A fome não é um objeto.”

Dizem que quando colocamos o pé na estrada e saímos de casa para seguirmos as nossas vidas, a vontade de voltar para o nosso lar é quase um tanto insuportável. Conheço muitas pessoas que se adaptam a vida nômade, mas será que, sob as mesmas condições de Tudo O Que Tenho Levo Comigo, as pessoas pensariam da mesma forma?

“A tolerância zero não conhece parágrafos, não precisa de leis.”

Quando eu tinha 17 anos, tinha uma vontade enorme de ir embora de casa. Morar em um Estado diferente. Ganhar novos sotaques. Viver a vida do meu jeito. Hoje, aos 23 anos, posso te dizer que todas essas novidades me deixariam tão intolerante quanto Auburg, o nosso jovem romeno. Viver é difícil e é para poucos.

“Julgo que quanto menor o medo aos mortos, mais apego se tem à vida. Mais se está disponível para qualquer tipo de mentira.”

No caso de Auburg, ele volta para casa após cinco anos, mas sente que o retorno não é completo. Um pedaço dele foi deixado para trás, nos campos soviéticos, e uma parte foi levada com ele. Tudo O Que Tenho Levo Comigo é uma obra para trabalhar a sensibilidade e a covardia de cada ser humano, bem como a forma que você mostra isso para o mundo. Discussão infinita…

“Sempre tento convencer-me de que sou pouco sensível. Se levo algo a sério, afeta-me apenas moderadamente. Quase nunca choro. Não sou mais forte do que os de olhos úmidos, e sim mais fraco. Eles se atraem. Quando se é apenas pele e osso, os sentimentos são valentes. Prefiro ser covarde. A diferença é mínima, eu uso minha força para não chorar. E se me permito algum sentimento, transformo-o numa história que insista, seca, na ausência de nostalgia. […] Podemos transformar-nos num monstro quando deixamos de chorar.”

“Alguns dizem e cantam e calam e andam e sentam e dormem sua saudade, tão inútil e insistentemente. Alguns observam: a nostalgia perde seu conteúdo com o tempo, arde a fogo lento e torna-se realmente devoradora, porque não tem mais relação com o lar concreto. Faço parte dos que pensam assim.”

“O medo não conhece perdão.”

Fonte: Skoob

Fonte: Skoob

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