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“Caro leitor: tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu.”

Em três anos e meio de Pitacos Culturais, após mais de 150 resenhas, nunca tinha começado um livro com uma sensação de medo. Essa frase com que inicio meu texto conseguiu tirar todas as armaduras que carrego comigo a cada vez que começo uma nova leitura. Afinal, o que K., do brasileiro Bernardo Kucinski, tem de tão bom, além de uma história profunda em poucas páginas?

O período usado como cenário é a ditadura militar. O personagem principal, intitulado como K. (que é o nome do livro também), é um judeu imigrante e escritor em busca do paradeiro de sua filha, desaparecida misteriosamente no pior momento da ditadura. Sua filha, que é uma professora de química da Universidade de São Paulo, está sumida e K. sabe que é por motivos políticos. Meses depois, descobre como o silêncio e a falta de uma explicação é torturante e angustiante.

O relato dessa busca, que é ficcional, mas parece tão real, me fez sentir na pele como foi a ditadura militar. Um período difícil e cruel, me fazendo relembrar a visita que realizei no ano passado no Memorial da Resistência, na cidade de São Paulo. Kucinski tem um jeito bem bonito de escrever, usa palavras precisas e traz muitos aprendizados sobre a cultura judia, comparando-a temida ditadura com o Holocausto.

Cada capítulo é um soco no estômago. É quando descobrimos que K. nada mais é que o relato de tantas vozes que tiveram que ficar caladas por anos. É o relato de pessoas que sofreram com a dúvida, que não puderam enterrar seus próprios pais, irmãos, tios e esposos. Quem dera mesmo que tudo isso fosse ficção, que a violência fosse uma mentira inventada para podermos contar histórias como se fosse a estória de Alice No País Das Maravilhas. Kucinski é o sonho que ameniza a dor do pesadelo.

“Mas o que importa é que virou paixão. E aí não interessa se o cara é um bandido, se é casado ou solteiro, ou o que seja; não sei se a senhora já viveu uma paixão, se a gente nega, ela só aumenta, vira doença, arrebenta com a gente. A senhora não pense que paixão e amor são a mesma coisa, paixão é louca, cegueira, a perda completa do nosso discernimento. É como se ele tivesse me hipnotizado.”

K

Fonte: Skoob

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