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“Porque a liberdade é como o sol, bem maior que o mundo.”

De todos os livros já lidos e resenhados nesses três anos e nove meses de Pitacos Culturais, Capitães Da Areia, do queridíssimo baiano (ou baiano queridíssimo) Jorge Amado, é, sem sombra de dúvida, um dos mais prazerosos que pude me dar ao luxo de escrever. Se eu soubesse que esse clássico da literatura brasileira fosse tão apaixonante, teria lido bem antes. Porque, diferentemente da maioria dos alunos que saem do Ensino Médio com a obrigação de lê-los, eu não passei por isso. No máximo, rolou Iracema, do José de Alencar. E, olha, vocês não tem ideia de como me arrependo disso.

Bom, vamos começar do zero. Essa leitura teve o patrocínio e incentivo do meu namorado, que ganhou o livro de presente do seu pai. Isso me faz lembrar que, desde a minha adolescência, os meus pais citavam a novela/minissérie exibida pela Rede Bandeirantes no final da década de 80. E de como a história dos meninos abandonados em Salvador nos anos 30 se faz tão atual e presente em nosso dia a dia. Quem teve a oportunidade de ler a obra editada pela Círculo do Livro pode entender como a crítica de Antonio Houaiss é pertinente. Jorge Amado desperta em Capitães Da Areia o mais puro sentimento humano que existe dentro de nós, que é a compaixão.

Primeiramente, podemos ressaltar a simplicidade das palavras que, apesar de serem carregadas do regionalismo nordestino, não tem nada de incômodo. Pelo contrário, Amado é um escritor de mão cheia, trazendo referências puramente baianas em muitos capítulos, inclusive nomes religiosos da cultura africana. É um show de regionalismo, porque mostra que o Brasil é tão grande a ponto de desconhecermos os termos utilizados em comunidades locais, que é o caso de Salvador.

Os personagens também merecem destaque em Capitães Da Areia, começando pelos nomes excêntricos e inesquecíveis, como Pedro Bala, Sem-Pernas, João Grande, Dora, etc. Cada um seguindo suas características inesquecíveis, que nos fazem entender a força de um nome na história. Mas, vamos ao que interessa. Afinal, quem são os temidos Capitães Da Areia?

Em uma década onde poucos podem se aproveitar da riqueza de ter um lar para dormir e comida para matar a fome, os Capitães são um grupo de menores abandonados que moram próximo ao porto da Cidade Baixa, em Salvador. O cenário é pobre, hostil e violento, tanto fisicamente quanto emocionalmente, pois são crianças e adolescentes que perderam mais do que um teto e uma família: eles perderam o carinho e amor. Como meio de sobrevivência, roubam e furtam na rua, na maioria das vezes em grupo, e em partes se aproveitando da bondade daqueles que têm mais.

Dividido em três partes, o livro tem um ótimo começo, meio e fim. Mostra quem é quem na terra de Pedro Bala, o líder do Capitães da Areia. Acompanhado de Volta-Seca, Professor, Gato, Boa-Vida, Sem-Pernas, João Grande, Almiro, Pirulito, entre outros, o que vemos em Capitães Da Areia é a linha do tempo, flamejada entre o sucesso e o fracasso (não totalmente) de um grupo de garotos que só queria afeto, que aprenderam o valor da união quando a vida os obrigou a ficarem sozinhos.

Quero ressaltar aqui a minha simpatia por Padre José Pedro, um paroquiano que não se deu muito bem nos estudos teológicos, mas que usava a religião para levar os meninos para o bom caminho. Alguns se deram bem, tanto de forma honesta, como o Pirulito e o Professor, ou de forma malandra, como Gato. E o que dizer então de Dora, a menina loira que chega no trapiche acompanhada do irmão, sendo devorada por olhos famintos carnalmente, e que depois se transforma numa mãe, irmã e até noiva de Pedro Bala?

Longe de mim fazer um spoiler, mas até deu pra chorar com o desfecho que Jorge Amado reserva para o único casal da história. Dá pra ficar indignado com os maltratos feitos a Pedro Bala em sua captura. Dá pra sonhar que vai ter final feliz pra todos, mas não. Não tem, porque a gente sabe que os menos favorecidos jamais têm final feliz. Não generalizando assim, mas a gente sabe que a realidade é cruel e fria. Ah, se eu pudesse carregar dentro de mim um pouquinho da coragem de cada personagem, tenho certeza que eu seria uma pessoa bem melhor. Porque Capitães Da Areia nada mais é que um romance dos bons, mesmo sem final feliz.

Fonte: Skoob

Fonte: Skoob

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