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A Beleza é Uma Ferida - Eka Kurniawan

“Nunca fique na expectativa de morrer só para ser lembrado.”

Pensei em deixar essa resenha para a semana que vem, pois esqueci o livro em São Paulo e acabei vindo para o interior sem ele. Mas, tenho medo de que minhas melhores memórias de A Beleza É Uma Ferida, do indonesiano Eka Kurniawan, se vão. Aliás, preciso ressaltar que a experiência desse livro foi uma das mais loucas e bacanas que já tive, mesmo tendo dado apenas quatro estrelas e meia para a obra.

Primeiramente, é importante lembrar para qualquer futuro leitor que A Beleza É Uma Ferida é uma narrativa sobre a vida e a morte. Apesar da sinopse um tanto quanto cômica, a história de Dewi Ayu é de extrema sensibilidade e a personagem, citada nas orelhas do livro, quase nem aparece. O assunto mesmo é a sua vida sofrida, que se assemelha com a de muitas mulheres que conhecemos por aí. E é por isso mesmo que eu gostei tanto de Kurniawan.

Antes que você saia correndo para a primeira livraria ou loja virtual para comprá-lo, eu preciso avisá-lo que esse livro tem muitos personagens. Tanto que, assim que eu voltar para São Paulo, me proponho a fazer uma árvore genealógica dessa grande família. Aqui, temos a grande estrela, a prostituta Dewi Ayu. Antes que vocês a julguem, é importante lembrar que ela só virou prostituta por causa das guerras que estavam acontecendo em Halimunda, que foi invadida pelos japoneses e depois pelos comunistas.

Diferentemente das outras mulheres refugiadas, Dewi Ayu é linda. É uma holandesa de pele bonita, olhos claros e capaz de enlouquecer qualquer homem. Um dia, para evitar que a mãe de uma das meninas presas ficasse sem medicamentos, ela decide vender seu corpo para o capitão de um navio. A partir daí, percebe que aquilo que a natureza lhe deu é seu instrumento de trabalho, sendo uma das prostitutas mais disputadas da cidade, após a libertação de todas.

Sendo assim, era provável que engravidasse. Mesmo tão nova, a dona do maior puteiro da cidade resolve dar asilo para Dewi e todas as outras refugiadas. Em troca do valor de sua beleza, ela vende Ayu para apenas um homem por noite, a fim de evitar a manifestação de doenças sexualmente transmissíveis de forma desenfreada e também de filtrar os potenciais clientes. Ao longo dos anos, Dewi teve outras duas filhas lindas, totalizando três lindas garotas: Alamanda, Adinda e Maya Dewi, todas de pais diferentes. No entanto, quando engravidou da quarta filha, sentiu que ela não seria bem-vinda ao mundo, mesmo assim, deu à luz. Apesar de horrorosa, a caçula recebeu o nome de Beleza.

Caindo na desgraça, Dewi Ayu desiste de viver e falece 12 dias após o nascimento da última filha. Cerca de 21 anos depois, ressuscita. E o que vemos nas próximas páginas é a narrativa da mulher que fez história em Halimunda, bagunçando corações e causando muitas iras. Isso sem falar nas suas três lindas e belas filhas, que seguiram os passos da mãe e conquistaram muitos homens.

Nos outros capítulos, vemos a relação que cada homem tem com a história. Desde o Comandante Kliwon até Shodancho, que são personagens que acabam se relacionando com as filhas e até com a mãe. Quando eu disse que A Beleza É Uma Ferida era um livro bem louco, estava me referindo às relações que os personagens tem em si. O grande amor da filha mais velha se casa com a segunda filha, a terceira filha se casa com o marido da mãe, o filho de fulana se apaixona pela própria prima… Vai entender toda essa bagunça!

Mesmo assim, Kurniawan consegue aflorar a sensibilidade da obra. É tudo tão exótico que chega a ser encantador. Apesar de ser uma história marcada por estupros, assassinatos, fantasmas e incestos, o livro é um dos melhores que já li, pois são tantos mistérios relacionados entre si que é quase impossível não se prender. Mais do que tudo, existem muitas críticas políticas escondidas (e também escancaradas) que fazem a gente perceber que o que vemos na TV ou nos livros é mais do que real, nos fazendo desejar que tudo não passe de uma mera ficção. São lendas e folclores, mas, mesmo sem final feliz, eu consigo acreditar que Dewi Ayu existiu em algum lugar do mundo…

“Existem dois tipos de mulher que um homem pode amar: o primeiro tipo, ele ama para cuidar e proteger, e o segundo, para foder.”

A Beleza É Uma Ferida

Fonte: Skoob

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