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ZERO K - Don DeLillo

A cada livro que leio, continuo tentando entender quais são os meus critérios na escolha de uma obra. Quando recebi o catálogo de parceiros da Companhia das Letras, fui além da tradicional capa e decidi que Zero K, do norte-americano Don DeLillo, seria uma das minhas próximas leituras. Se levarmos em consideração a capa sem impacto e a sua nota mediana no Skoob, esse livro seria uma das minhas últimas escolhas.

“Eu quero morrer e acabar pra sempre. Você não quer morrer?, ele perguntou. Não sei. Qual o sentido de viver se no final a gente não morre?”

Mas quer saber de uma coisa? Zero K é uma das obras que entram para a minha lista de “surpreendentes”. Melhor do que mergulhar em uma história sem expectativa é sair dela com muitas impressões positivas. Longe de ser uma obra de cinco estrelas, esse livro nada mais é que uma narrativa um tanto quanto distópica à la George Orwell. Apesar do cenário ser tipicamente futurista, DeLillo traz uma crítica para as escolhas que fazemos no passado.

Ao contrário da maioria das histórias de ficção sobre vida após a morte, Zero K se desenvolve rápido. Não é preciso muito tempo para entender quem são os personagens principais e o papel de cada um. Três nomes aparecerão com frequência e são eles que você tem que decorar: Jeffrey, Ross (pai de Jeffrey) e Artis (madrasta). Antes de entender o restante do contexto, é preciso entender o que realmente significa Zero K:

“A guia explicou o sentido da expressão Zero K. Era uma narrativa decorada, com pausas e recomeços já estabelecidos, e dizia respeito a uma unidade de temperatura chamada zero absoluto, que equivale a duzentos e setenta e três vírgula quinze graus Celsius abaixo de zero. Um físico chamado Kelvin foi mencionado, a origem do K da expressão. A coisa mais interessante que a guia tinha a dizer era que a temperatura utilizada na criopreservação na verdade nem chega perto de zero K.”

Artis tem uma doença degenerativa e está com os dias contados. Jeffrey foi convidado para se despedir da mulher que cuidou dele a vida inteira, mas descobre que os planos de seu pai não são apenas enterrá-la em paz, mas preservá-la por tempo indeterminado em uma cápsula criogênica. Criogenia é o estudo da produção de temperaturas muito baixas e de seus fenômenos, utilizando corpos humanos para serem “ressuscitados” no futuro.

A ideia assusta Jeffrey. Além de ser uma proposta fora do normal, a escolha de seu pai é, na verdade, um empreendimento chamado Convergência. Seria isso uma escolha daquele que está na situação? Ou uma fuga da vida ou da morte? A essência de Zero K e Don DeLillo é justamente entender e provocar uma reflexão sobre o que faria uma pessoa escolher ter seu corpo congelado ao invés de ser enterrado. Do que estamos fugindo ou o que estamos buscando?

Enquanto o budismo acredita na vida após a morte, mas de uma forma mais espiritual, algumas empresas estão tentando transformar essa dúvida em ciência e capitalismo. Vender a ideia de que podemos viver tudo aquilo que não pudemos em vida é uma proposta que atrai os mais orgulhosos. Então, a discussão que me veio à cabeça quando cheguei na última página é: melhor continuar de onde parou ou recomeçar tudo de novo? O que nos leva a dar valor para uma segunda chance do que uma “vida como se não houvesse amanhã”?

Definitivamente, Zero K é um ótimo livro e só me cabe desejar que a ficção não se torne realidade. Porque nada melhor do que uma vida com memórias e sem artificialidades.

“As pessoas quando ficam mais velhas se apegam mais aos objetos. Acho que isso é verdade. Coisas específicas. Um livro encadernado em couro, um móvel, uma foto, uma pintura, a moldura da pintura. Essas coisas fazem o passado parecer permanente. Uma bola de beisebol assinada por um jogador famoso, morto há muito tempo. Uma simples caneca de café. Coisas em que confiamos. Elas contam uma história importante. A vida de uma pessoa, todos os que entraram e saíram, há uma profundidade, uma riqueza. A gente costumava ficar numa certa sala, muitas vezes, a sala das pinturas monocromáticas. Eu e ela. A sala da casa com aquelas cinco pinturas e os ingressos que nós guardamos e emolduramos, como dois turistas adolescentes, dois ingressos de uma tourada em Madri. Ela já não estava nada bem. A gente falava pouco. Ficávamos sentados, só lembrando.”

Zero K

Fonte: Skoob

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