Home

A Peste - Albert Camus

Um pouco, dois é bom e três é demais. No caso da literatura, acho que essa frase é bastante válida. Com um pouco de insistência, fiz com que a leitura do clássico francês A Peste, de Albert Camus, se transformasse em uma das melhores experiências que já tive e é muito bom saber que a desistência não foi mais forte do que eu.

“A tolice insiste sempre, e nós a compreenderíamos se não pensássemos sempre em nós.”

Hoje, três anos depois da primeira vez, finalmente consigo ser justa com o escritor. Afinal, meu primeiro encontro com Camus foi um tanto confuso, um tanto quanto similar àqueles encontros às cegas que fazemos quando conhecemos alguém na internet. Após alguns tropeços, chego a última página de A Peste com pouco fôlego nos pulmões.

Como num passe de mágica, devorei a obra em poucos dias. E tenho vergonha de dizer que demorei pelo menos umas 50 páginas para entender que o próprio título do livro resume a narrativa: a peste. Sim, essa mesmo. Aquela que os seus professores de história devem ter comentado e está relacionada aos temidos ratos urbanos, causando doenças com sintomas incuráveis e de propagação rápida.

“E assim, encalhados a meia distância entre esses abismos e esses cumes, mais flutuavam do que viviam, abandonados a dias sem rumo e recordações estéreis, sombras errantes, incapazes de se fortalecerem a não ser aceitando enraizar-se na terra de sua própria dor.”

Apesar da temática estar relacionada ao título, o propósito de Camus vai além. As páginas relatam o sofrimento de argelianos da cidade de Orã, desesperados em fugir desse mal invisível. Dr. Bernard Rieux, um dos personagens principais, mostra seu dia a dia e a luta com os acometidos pela doença, desde a descoberta do problema até a erradicação.

Aqui, as pessoas que perdem a chance de realizar sonhos, de continuar amando, de conhecer novos lugares… Só resta então a esperança de sobreviver ou de aproveitar cada um dos últimos dias. Seriam as epidemias uma alternativa para lembrarmos da importância de nossa existência e do nosso destino no universo?

“É o mesmo para todos: a gente se casa, ama ainda um pouco, trabalha. Trabalha tanto que se esquece de amar.”

Camus revolucionou a literatura de sua geração de forma dolorosa, cruel e realista. Digo isso porque vemos nitidamente como o ser humano se transforma perante uma situação de emergência. Assim que a epidemia acaba, porque sim, ela tem um fim, e o que vemos é a restituição da bondade das pessoas, como se uma doença tivesse que existir para que as atitudes de indiferença deixassem de existir.

Talvez seja por isso que considerem A Peste um elogio à vida e também um conglomerado de críticas aos mais diversos problemas sociais, desde o nazismo, o regime totalitário e a liberdade de imprensa, imposta nitidamente ao personagem Tarrou, citado muitas vezes por ter a infelicidade de estar em Orã na hora errada e no lugar errado.

“A peste, é preciso que se diga, tirara a todos o poder do amor e até mesmo da amizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e para nós só havia instantes.”

Outros personagens também contribuem para a fluidez da obra, juntamente com o médico narrador. Unidos, eles compartilham seus medos e angústias, sem deixar de acreditar que, assim como as guerras da época, a peste teria um final feliz. A falta de religião em A Peste é o que dá um sabor especial para tudo isso, pois faz com que cada leitor encontre a sua forma de explicar a importância e insignificância da morte.

Enquanto muitos leitores entenderão o fim de suas vidas como uma forma de recomeçar, outros entendem a morte como um horror que determina o fim da existência. É neste exato momento que proponho a seguinte reflexão: quantas vidas são necessárias para que nós, seres terrestres, aprendamos que somos apenas poeira estelar?

“O homem direito, aquele que não infecta quase ninguém, é aquele que tem o menor número de distrações possível.”

A Peste

Fonte: Skoob

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s