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Mary Barton - Elizabeth Gaskell

Personagens femininas são comuns na literatura, mas poucas dão voz e força para suas histórias como Mary Barton, da britânica Elizabeth Gaskell. Jane Austen, as irmãs Brontë e Mary Shelley revolucionaram a escrita com seus protagonistas e narrativas apreciadas mundialmente, e tenho certeza que você nem sabe a importância de Gaskell para o universo literário.

Em meio à Revolução Industrial do século XIX, onde trabalhadores ingleses lutavam por direitos trabalhistas e melhores condições de vida, temos Mary Barton, a frágil personagem que leva o nome da obra e traz toda sua sensibilidade para as mais de 450 páginas. Sempre defendi os romances ingleses e esse não passaria despercebido.

“Uma mente ansiosa nunca é uma mente santa.”

Por se tratar de uma mulher, esse clássico é uma obra que se destaca e merece uma resenha de peso. Usar a revolução como tema de sua narrativa fez com que Gaskell fosse mais que uma romancista sobre triângulos amorosos. Estamos acostumados às diferenças sociais entre os personagens, e nem me surpreendo que essa prerrogativa seja exclusiva do homem.

Como era previsível, Mary Barton é a pobre que se apaixona por um homem rico. Mais do que isso: é a filha de um John Barton, que a cria sozinho, e ambos sofrem com a vida difícil das classes operárias que aprendemos nas aulas de História. Seu pai trabalha na fábrica dos Carson, e em diversos momentos aparece na obra como um proletariado que sempre está em busca dos seus direitos.

Indignado com o amor de sua Mary pelo dono da fábrica, John é capaz de cometer uma loucura para proteger sua única filha de se casar com um homem egoísta, que oferece as piores condições de trabalho aos seus funcionários, além de salários miseráveis e demissões, em uma das maiores cidades inglesas atualmente: Manchester.

A solução de tudo parece vir de Jem Wilson, um jovem amigo da família e tão pobre quanto John e Mary. Como diz o ditado popular: “a corda arrebenta sempre para o lado mais fraco” e, mesmo com reviravoltas, o alívio vem para aqueles que fazem o bem. Escrito de forma única e atemporal, se não fosse a Revolução Industrial, eu diria que Gaskell é uma mulher corajosa e à frente do seu tempo, levando em consideração que escrevia parágrafos suicidas para sua época.

Dois grandes exemplos da importância literária de Gaskell para o período se demonstram abaixo. As diferenças entre a burguesia e os proletários são problemas que estão longe de acabar e, assim como ela, me entristece saber que sua crítica à época é bastante atual:

“O que me deixa mais triste, o que faz meu coração queimar no peito, é ver que tem gente capaz de rir do trabalhador; de homens que vieram pedir por um pouco de lenha para a avozinha que treme de frio; por alguns lençóis e umas roupas quentes para a pobre mulher que tem neném na pedra fria do chão; e por comida para as crianças, cujas vozes estão ficando fracas demais para chorar de fome. Afinal, meus irmãos, não é por isso que nós pedimos quando clamamos por um salário maior? Não queremos doce, queremos barriga cheia; não queremos casacos e coletes de seda, mas roupas quentes; e, se tivéssemos roupas nem íamos lugar para o tecido. Não queremos essas casas enormes que eles têm, queremos um teto para nos proteger da chuva, da neve e da tempestade; sim, e não apenas para nos proteger, mas também aos indefesos que se apertam contra nós no vento frio e nos perguntam com os os olhos porque nós os trouxemos ao mundo para sofrer.”

Nem os filósofos mais renomados com suas teorias sobre os valores morais e éticos conseguem justificar o porquê do universo ainda não ter capacidade de usar o seu “pensamento crítico” para se indignar com situações que dividem a sociedade, em vez de igualá-las. Para os pobres, negros e todas as minorias existentes, o problema está longe de acabar. 

“Os pesares para os quais não se pode encontrar nenhuma saída neste mundo são aqueles em que o consolo é mais inútil. De todas as platitudes vãs ditas por aqueles que não se incomodam de fato em se pôr no lugar do outro, a que mais me desagrada é a exortação de que não se deve lamentar por acontecimento, pois “não tem jeito”. Você acha que se houvesse algum jeito eu ficaria sentada de braços cruzados me contentando em chorar? Não sabe que enquanto houvesse esperança, eu estaria lutando? Choro justamente porque o que ocorreu não tem jeito. O motivo que você me dá para não me lamentar é o único motivo do meu lamento. Dê-me razões mais nobres para aceitar com humildade aquilo que o Pai mandou para mim, e eu tentarei com afinco e fé ser paciente; mas não zombe de mim, nem de qualquer outra pessoa triste, com a frase: Não se lamente, pois não tinha jeito. O que não tem remédio, remediado está.”

Mary Barton

Fonte: Skoob

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