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Trainspotting - Irvine Welsh

Livros, filmes e músicas marcam gerações e, algumas vezes, deixam lembranças únicas em quem vivencia as três experiências. Quando me desafiei a ler Trainspotting, do escocês Irvine Welsh, tentei colocar de lado o peso da influência que o filme de Danny Boyle deixou na década de 90. Eis aqui uma das resenhas mais sinceras que escrevi.

“As pessoas dizem que não existem mulheres frígidas, só homens incompetentes. >> Basicamente, a gente vive uma vida curta e decepcionante; depois a gente morre. A gente enche a vida de merda, de coisas como carreiras e relacionamentos, pra ficar livres da ideia de que tudo é inútil.”

A propagação das drogas e das doenças sexualmente transmissíveis nos datam memórias de épocas como os anos 80 e 90, mas ela é antiga: vem desde os anos 60. Na Escócia, cenário em que se passa a história dos adolescentes Renton, Matty, Sick Boy, Tommy, Spud e Begbie, o ano retratado é a década de 80, período em que países como a Holanda começam a distribuir seringas por meio do sistema de saúde público, como forma de evitar a contaminação e a proliferação de doenças como a hepatite, a AIDS e o HIV.

Definitivamente, Trainspotting é uma obra de peso. Não por sua quantidade de páginas e nem pela sua capacidade de ter se transformado em um filme de sucesso: mas, sim, por sua extrema habilidade em conquistar a atenção de leitores que nada tem a ver com o universo narrado. Aliás, a narrativa é tão poderosa que nitidamente é possível discernir a linguagem de cada personagem.

“Livro só serve pros espertinho ficarem se exibindo com todas as merda que já leram. Tudo que cê precisa saber tá na tevê e nos jornal.”

Muitos críticos usaram a palavra “banal” para definir o livro de Welsh. Seis adolescentes que têm o álcool e a heroína em comum passam a impressão de um Big Brother Brasil em forma de leitura. Acompanhar os acontecimentos dos personagens de Trainspotting é, na maioria das vezes, uma perda de tempo. E é exatamente essa a ideia que Welsh quer transmitir: nossa existência é mal aproveitada.

Existe uma crítica escondida na obra literária de Welsh que, sendo explícita ou não, retoma um assunto que, em alguns momentos, é abordado pela mídia: a meritocracia. Os episódios narrados mostram a triste e dura realidade de quem se afundou nas drogas e que não supera o vício por falta de oportunidades na vida. Aqui, Edimburgo, a capital da Escócia, perde os ares modernos e charmosos e ganha um cenário sujo e escuro.

“Às vezes eu penso que homens só prestam mesmo pra dar uma trepada de vez em quando. Pra qualquer outra coisa, esses merdas só incomodam. Talvez isso pareça loucura, mas quando cê para e pensa percebe que é verdade. Nosso problema é que a gente nunca pensa muito nisso e fica só aceitando as merdas que esses escrotos fazem com a gente.”

Sem papas na língua, Trainspotting mostra que não tem o que esconder do leitor: seus personagens são perturbados e seu cenário é marcado de sexo, palavrões e drogas. É a retratação de uma época que, mesmo com o passar dos anos, não perdeu sua similaridade com as realidades atuais. Ainda mais para nós, paulistanos, que temos a Cracolândia, a maior área de consumo de drogas a céu aberto em São Paulo.

O cotidiano nunca foi tão cruel e as palavras nunca fizeram tanto sentido.

“O cliente sempre tem razão, mesmo que ele seja um filho da puta.”

Trainspotting

Fonte: Skoob

 

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