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Negrinha - Monteiro Lobato

Dias atrás, presenciei uma discussão em um evento literário sobre os escândalos que, frequentemente e de tempos em tempos, envolvem os escritores, atores e artistas em geral. Afinal, é hipocrisia admirar o trabalho de alguém envolvido com pornografia, pedofilia e afins, mesmo que sua obra e trabalho sejam extremamente relevantes para a sociedade?

“O romantismo, meu caro, existe na natureza, não é invenção dos Hugos; e agora que se fez cinema, posso assegurar-te que muitas vezes a vida plagia o cinema escandalosamente.”

Entre um dos exemplos citados, estava o escritor brasileiro Monteiro Lobato. Esse mesmo, das histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo, que provavelmente fizeram parte da sua infância. Poucos sabem, mas esse paulista de Taubaté, interior de São Paulo, é responsável pela criação de diversos personagens icônicos para a cultura brasileira, entre eles a vovó Naná, o saci-pererê e a inesquecível boneca de pano Emília.

Durante o bate-papo, um dos palestrantes ressaltou o racismo de Lobato. Quem nunca tinha lido ou sequer leu uma obra literária deste famoso escritor, terá dificuldades de reconhecer que a sua utilização de minorias, como os negros e escravos, foi feita de forma um tanto preconceituosa. Aqui, eles não são apenas isso: associados a sujeira, vagabundice, pobreza e sem-vergonhice.

“Negro quando acerta de ser bom vale por dois brancos.”

Esse pensamento de Lobato é bastante expressivo em seus contos reunidos na coletânea Negrinha. Textos de 1920 a 1950 recheiam uma das principais obras do escritor, que traz um retrato real do Brasil no século passado. Sinhás que maltratam seus empregados, negros apanhando, minorias que não sabem ler ou escrever, entre outras características da época aparecem nas histórias.

Em analogia com as lutas atuais, quem se aventura com Monteiro Lobato nos dias de hoje pode se sentir ofendido. Situações que, naquele período, tentavam demonstrar conotação cômica, já não têm mais a menor graça. Nem mesmo o título de principal autor brasileiro da literatura juvenil pode livrar o peso e a imagem negativa de Lobato, que entreteve milhares de brasileiros com suas narrativas.

“Tio Adão diz que o amor é doença. Que a gente tem sarampo, catapora, tosse comprida, cachumba e amor – cada doença no seu tempo.”

Mas sejamos racionais: Negrinha revolucionou sua época. Lobato modificou o cenário brasileiro, utilizando-se de nossa própria realidade para criar uma obra atemporal. Mesmo que os pensamentos atuais não permitam enxergar sua trajetória com bons olhos, precisamos reconhecer que tais livros são um marco na literatura. E precisam trazer novas discussões e aprendizados, apesar dessa cicatriz nunca se fechar.

Negrinha - Monteiro Lobato

Fonte: Skoob

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