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Carta a D. - André Gorz

Em tempos de amores líquidos e relacionamentos frágeis, os sinais do amor parecem chegar com mais demora. Criar vínculos e laços humanos chega a ser um sacrifício tão pesado quanto a jornada de trabalho. Deveríamos deixar de acreditar nas histórias de amor? Não parece o caso deste lançamento da Companhia das Letras: Carta a D., do escritor austro-francês André Gorz (pseudônimo de Michel Bosquet).

A princípio, a palavra “carta” pode assustar alguns seres humanos. Esse meio de comunicação tão fora de moda é ainda um dos mais originais e perspicazes. A responsabilidade de transformar o amor à dois em uma carta sem destinatário é das mais corajosas: Dorine, a mulher retratada, é o exemplo nítido de que existe final feliz.

André e Dorine se conheceram em outubro de 1947, em Lausanne (Suíça) e cometeram suicídio em 22 de setembro de 2007. Seus corpos foram encontrados um ao lado do outro. Um cartaz na porta da casa pedia que avisassem a polícia. São 58 anos de companheirismo e uma comovente trajetória, incluindo a descoberta do sentimento entre o casal e a notícia sobre a doença degenerativa incurável de Dorine.

Gorz vivia no meio jornalístico, enquanto se dividia com a vida de escritor. Dorine era do cenário de artes cênicas. Passaram por poucas e boas, como uma vida simples em um bairro não tão nobre na cidade do amor: Paris. Apesar de pouco famoso, Gorz foi discípulo do filósofo francês Jean-Paul Sartre e um renomado crítico da imprensa local.

Carta a D. emociona, entretem e nos faz refletir: o que a sociedade moderna fez conosco? Por que o sofrimento se tornou intrínseco do ser humano? A instabilidade e os términos são um exemplo claro que os relacionamentos causam insegurança e impedem o progresso. Quem vê os relatos de Gorz para Dorine cria uma película imaginária de que somos incapazes de manter a mesma forma por tanto tempo.

Quando Zygmunt Bauman se refere a nós como “líquidos”, está se referindo aos estados físicos da matéria: sólido, líquido e gasoso. A crise, seja ela financeira ou não, deixa os casais a mercê de um fim e cada vez mais perto da crise. Terminar um relacionamento sob este período significa que não somos capazes de enfrentar um problema ou de mudar a maneira como vivemos.

O que sobra? Uma geração frustrada, sem esperança e com medo de arriscar. Estabelecer relações de confiança “até que a morte os separe” são práticas inconvenientes da nossa realidade. Preferimos começar do zero do que corrigir. E isso não é só visível nos casais: existe na vida profissional, na vida familiar; bem mais perto do que se imagina.

Essa injeção de ânimo do casal é sinônimo de sensibilidade e gratidão de quem reconhece  o papel fundamental de outrem para o nosso sucesso. Para muitos, o amor é uma fraqueza ou algo banal demais para ser exposto. Perceber a importância da existência de outra pessoa é aceitar que amar é uma escolha individual, pois é justamente quando decidimos excluir todas as outras hipóteses.

Aos corações gelados, que nos sobre tempo de (nos) encontrar. Aos apaixonados, que tenhamos solidez para continuar. A todos os amantes da literatura, que leiam esta obra.

Obs.: lançado em 2008 pela Cosac Naify e em 2018 pela Companhia das Letras.

Carta a D.

Fonte: Skoob

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