Home

A Origem do Mundo - Liv Strömquist

Você já se perguntou por que nossa sociedade odeia vagina? Quer dizer, vagina não, vulva. Odiamos tanto a ponto de não saber nem mesmo os nomes biológicos da anatomia de metade da população brasileira.

Em que momento passamos de uma sociedade que cultuava deusas femininas com vulvas enormes para outra que obriga pessoas que menstruam a levarem absorventes escondidos para o banheiro, por vergonha? Esses são alguns dos questionamentos que a sueca Liv Strömquist responde, com perfeição e ironia, na HQ A Origem do Mundo: Uma História Cultural da Vagina ou a Vulva vs. o Patriarcado.

No livro, a artista mostra todas as tentativas de domar, castrar e padronizar o sexo feminino ao longo da história. As referências são inúmeras, mostrando o cuidados que a artista teve com a pesquisa e apuração de cada dado histórico contido no combo desenho + texto do trabalho.

Dos gregos antigos a Stieg Larsson, das mulheres da Idade da Pedra a Sigmund Freud, de Sartre a John Harvey Kellogg (o inventor dos sucrilhos!), da fábula da bela adormecida a deusas hindus, de livros de biologia ao rapper Dogge Doggelito… Não faltam dados para nos mostrar como a cultura ocidental construiu socialmente os sexos — e como essa construção serviu para a dominação do sexo feminino!

Por aqui, o livro A Origem do Mundo bateu forte. É muito revoltante notar como médicos, filósofos e o cristianismo se uniram para conseguir criar a rejeição pela sexualidade feminina. Não falo apenas da privação do conhecimento de seu próprio corpo, o que envolve masturbação e uma sexualidade mais livre. Falo também dessa diminuição do sexo feminino como algo frágil, o outro, aquele que sente inveja do sexo masculino e seu pênis, aquele que sangra todo mês e precisa ter vergonha disso, o sexo que precisa ter nojo do seu cheiro, dos seus pelos, do seu clitóris.

Dá pra acreditar que houve um tempo em que esculturas com vulvas gigantescas eram colocadas na porta de casa para que as deusas abençoassem com boas energias, fertilidade e abundância? Eu, feminista que estudo há mais ou menos meia década sobre o assunto, não sabia disso até ler o livro.

O ponto alto da HQ é o humor. Liv Strömquist consegue ser tão irônica na construção da narrativa que conseguimos rir como se estivéssemos conversando com uma amiga sobre quão tóxico é o patriarcado e seus efeitos, sabe? Muitas vezes ri e pensei “ai, miga, é isso, você me entende”.

“Acho que a percepção negativa do órgão sexual feminino, culturalmente tratado como repugnante ou vergonhoso, afeta as mulheres em um nível psicológico muito profundo. O órgão sexual feminino é retratado como algo fraco —  “não seja uma pussy” –, enquanto o órgão sexual masculino está constantemente ligado a conotações positivas de potência, força, masculinidade e assim por diante. Claro que isso afeta como nos sentimos sobre nós mesmas e limita a ideia do que podemos fazer no mundo. É um auto-ódio, eu acho. Para mim foi importante descobrir e aprender todas as informações que conto no livro, porque isso me fez sentir mais fortalecida e espero que a leitora sinta o mesmo.” – Entrevista de Liv Strömquist à Revista TPM

Recomendo demais a leitura de A Origem do Mundo! Obviamente para as mulheres, mas também para os homens. É importante ler e saber de onde vem todos os nossos preconceitos e tabus. Conhecimento é poder, e só podemos nos livrar de determinar crenças limitantes quando descobrimos que “nem sempre foi assim”.

Resenhista: Victória Durães (texto também disponível em seu Medium)

A ORIGEM DO MUNDO

Fonte: Companhia das Letras

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s